Horário: De terça a domingo. Das 10h00 às 18h00.

Rua do Mosteiro, 59

4700 - 565 Mire de Tibães, Braga

Da fundação à Atualidade

Da fundação à Atualidade

Da Fundação à atualidade

As Origens

Três mil anos passaram sobre os vestígios que o Homem da Idade do Bronze nos deixou num outeiro sobranceiro ao vale do Cávado, hoje jardim da capela de São Bento da cerca do Mosteiro de São Martinho de Tibães. As fossas aí descobertas – ligadas à armazenagem e moagem de cereal – provam uma antiga ocupação humana nesta região.

Nos inícios do segundo milénio, passados que foram a romanização e a ocupação suevo-visigótica, os monges beneditinos provenientes de Cluny, amparados pelos reis de Leão e Castela e pelo incentivo papal, foram fundando mosteiros por entre Douro e Minho, substituindo os velhos cenóbios e impondo a liturgia romana. É neste quadro que se integra, entre 1070 e 1077, a criação do primitivo Mosteiro de Tibães, dedicado a São Martinho de Tours que, nascido na Panónia (Hungria) talvez em 317, foi prolífico fundador de mosteiros e bispo de Tours.

O mosteiro medieval

Mosteiro familiar com fundação atribuída a Paio Guterres da Silva, maiorino de Afonso VI, rei de Leão e Castela, o seu edificado inicial teria uma matriz pré–românica que, com o decorrer da construção, evoluiria para românica, com a comunidade sujeita à Regra e observância beneditina. Em 1110, os condes D. Henrique e D. Teresa doam a Tibães as terras adjacentes ao mosteiro e outorgam-lhe a Carta de Couto, exemplo seguido por D. Afonso Henriques que lhe doará os coutos de Donim, no termo de Guimarães, e o da Estela, a Norte da Póvoa de Varzim. Estavam assim criadas as condições necessárias para que o mosteiro se transformasse num dos mais importantes da região norte do país.

Durante o século XIV as crises sociais e económicas conduzem os mosteiros à decadência moral e material, agravada pelo fim do governo dos abades perpétuos e sua substituição pelos comendatários, nomeados pelo rei ou pela Santa Sé sem pertencerem à comunidade e até, sem serem clérigos. Mas como para tudo há exceções, o governo do comendatário Frei António de Sá foi uma delas. Entre 1530 e 1550 mandou fazer um dormitório, noviciado e todas as mais oficinas necessárias a uma comunidade viver e governar sem falta dentro da clausura. Destes tempos, podemos ver os vestígios da parede da fachada e a soleira da porta existentes junto à atual portaria do carro.

Mosteiro de Tibães, Braga

A Casa-Mãe da Congregação dos Monges Negros de São Bento dos Reinos de Portugal (1567-1834)

A data de 1565 coincidiu com o final do Concílio de Trento, de onde procedeu a reforma das Ordens Religiosas. Tibães era nessa data, talvez, o único mosteiro beneditino com condições físicas para acolher as decisões tridentinas. O facto de ser central relativamente ao conjunto dos mosteiros beneditinos, aliado à circunstância de estar vago o lugar de abade, determinou a sua escolha, em 1567, para casa-mãe da recém-criada Congregação dos Monges Negros de São Bento dos Reinos de Portugal. Arvorando-se como peça importante do poder no Portugal moderno, criou o seu brasão com os elementos heráldicos: leão, castelo, água, sol, mitra e báculo. Os dois primeiros são alusivos ao reino de Leão e Castela que acolheu a Ordem Beneditina na Península Ibérica; a água a sair do interior do castelo significa o voto de «passagem do mar», que permitiu a expansão da Ordem para o Brasil; o sol é a luz do evangelho que ilumina toda a cristandade; a mitra representa o poder do Abade, que dentro da Congregação possuía uma autoridade equivalente ao do bispo; o báculo simboliza a autoridade do abade como guia pastoral dos monges.

O estatuto de casa-mãe irá dar ao mosteiro um protagonismo crescente. Nos séculos XVII e XVIII um novo edifício vai substituir o edificado românico-gótico, transformando o Mosteiro de São Martinho de Tibães num dos mais belos conjuntos monásticos do Portugal barroco, importante centro produtor e difusor de culturas e estéticas e lugar de exceção do pensamento e arte portuguesas.

 A secularização do mosteiro

A toda esta riqueza e esplendor põe termo a extinção das Ordens Religiosas em Portugal. Na sequência dos Decretos de 5 e 9 de agosto de 1833 (de José da Silva Carvalho) e de 28 de Maio de 1834, o mosteiro é nacionalizado e os seus bens inventariados e vendidos em hasta pública, com exceção da igreja, sacristia e respetivas alfaias, claustro do cemitério, antigos dormitórios e aposentos do abade geral e uma parte da cerca, que são entregues para uso da paróquia de Mire de Tibães. Apesar do edifício conventual ter sido adquirido por António Moura Monteiro em 1864 e a cerca ter sido comprada por José António da Silva Reis em 1838, todo o conjunto já pertencia, em finais do século XIX, ao Comendador José António Vieira Marques, abastado capitalista de Braga, de cuja posse permaneceria na família até os anos oitenta do século XX.

A importância patrimonial do mosteiro é reconhecida pelo Governo Português que, pelo Decreto-Lei n.º 33587 de 1944, o classifica como Imóvel de Interesse Público.

Com o andar dos tempos, o mosteiro viria a assistir à delapidação do seu património nuclear, à degradação e mesmo à ruína. Desta situação é resgatado em 1986 – após um período de denúncia pública da negligência patrimonial existente – através da compra pelo Estado da propriedade em uso privado, com a exceção de uma parcela da cerca – a Quinta da Ouriçosa – que continua ainda na posse dos antigos proprietários. 

Mosteiro de Tibães, Braga

O mosteiro na atualidade

Após a compra pelo Estado, um novo momento começava então para o «velho» mosteiro. Impunha-se de imediato conhecer, salvaguardar e valorizar para o resgatar da sua condição de perda e reabilitá-lo como monumento, devolvendo-o à fruição pública e fazê-lo readquirir o seu «lugar de cultura».

Iniciou-se assim uma vasta intervenção integrada de recuperação, restauro e reabilitação que permitiu a implementação do programa de reuso do mosteiro o qual passa pelas funções: cultual, com a igreja do mosteiro a continuar a acolher a atividade paroquial de Mire de Tibães; de acolhimento, com uma nova comunidade religiosa responsável pela gestão de uma hospedaria e de um restaurante; cultural e educativa, alicerçada nos espaços do conjunto monástico, nos percursos museológicos instalados e centrada no conhecimento, na preservação, educação, divulgação e dinamização do património do mosteiro e do seu território.

Este projeto visa integrar vivências, paisagens e arquiteturas. Pretende fomentar a utilização do espaço em si com os espaços reafetados articulando o percurso «exterior» com o percurso «interior», tudo isto num quadro de um museu «aberto» onde a perceção da sedimentação temporal se poderá testemunhar e interpretar.