Horário: De terça a domingo. Das 10h00 às 18h00.

Rua do Mosteiro, 59

4700 - 565 Mire de Tibães, Braga

O Mosteiro e os seus espaços

O Mosteiro e os seus espaços

O Mosteiro e os seus espaços

Composto por um amplo edifício e uma cerca murada, o mosteiro que hoje vemos foi construído/reconstruído, decorado/redecorado, ao longo dos séculos XVII, XVIII e XIX. Com uma arquitetura funcional, apresentava uma clara separação entre as áreas de oração, de trabalho e de lazer e as de comunicação com o exterior, e ainda entre as zonas ocupadas pela comunidade residente e as outras reservadas para o uso como casa-mãe da Congregação.

O seu edifício, igreja e alas conventuais, implantado numa área de 1ha, apresenta uma planta tão bem idealizada que forma quase um quadro perfeito à volta dos claustros do cemitério e do refeitório, do jericó do reverendíssimo, do pátio das cozinhas e dos terreiros das adegas e de São João. Por estes espaços se espalhavam: dormitórios, celas, capelas, capítulos, “troncos”, livraria, cartório, casa das pinturas, barbearia, botica, enfermaria, cozinha, despensas, hospedarias, hospício, cavalariças, recibo e celeiro, palheiros, abegoaria, lojas, adega, lagar, casas das obras, carpintaria e forja.

O mosteiro tem a norte uma fachada chã e austera, quebrada no piso superior por sacadas com grades de ferro e interrompida no inferior pela escadaria que conduz à igreja; pelas portas das duas portarias – a das gentes, com o nicho lavrado e imagem de Nossa Senhora do Pilar, e a dos carros com o seu frontão classicizante – e ainda pela fonte e tanque da portaria. Na parte nascente desta ala emerge a fachada maneirista da igreja com o vasto átrio de pedra de esquadria assente em plataforma elevada. Esta austeridade exterior do edifício esconde, numa manifestação própria do ideário da Contra Reforma, um interior de vastos e belos espaços com pedra e madeira magnificamente trabalhados e pintados, esplendorosa talha dourada, rica imaginária e variada azulejaria.

Mosteiro de Tibães, Braga

Em finais do século XVIII, quando o mosteiro crescia em dimensão e poder, este local foi a cavalariça para as cavalgaduras dos hóspedes.

Quando a instrução pública dava os primeiros passos, os monges construíram aqui uma sala de aula para o Mestre-Escola.

Depois do encerramento do mosteiro este espaço foi entregue à Paróquia de Mire de Tibães que o usou como lagar e adega.

De todos estes usos preservam-se ainda: a manjedoura; a grade de ferro, posta na janela para as crianças não devassarem o mosteiro; e a prensa do vinho.

Uma intervenção realizada no ano de 2009 reabilitou este espaço para funcionar como local de acolhimento de visitantes, bilheteira e loja.

Mosteiro de Tibães, Braga

Durante o século XIV as crises sociais e económicas conduziram os mosteiros à decadência, agravada, também, pelo fim do governo dos abades perpétuos e sua substituição pelo dos comendatários estes abades não pertenciam à comunidade e não eram, necessariamente, clérigos.

No entanto, o governo em Tibães do comendatário Frei António de Sá, na 1ª metade do século XVI foi uma exceção à regra. Segundo as crónicas, ao ver o mosteiro tão arruinado e preocupado com a vida espiritual e material dos seus monges, «mandou fazer um dormitório, noviciado e todas as mais oficinas necessárias a uma comunidade viver e governar sem falta dentro da clausura».

São destes tempos os vestígios que atravessamos, revelados pelos trabalhos arqueológicos desenvolvidos no mosteiro desde 1992, que aqui puseram a descoberto a parede correspondente à fachada quinhentista com a soleira da entrada e parte da ombreira nascente;

Na musealização deste espaço foram integrados objetos, que as diversas campanhas de escavações arqueológicas nos revelaram: capitéis e outros elementos líticos do período românico; parte da escultura setecentista de Santa Escolástica; cerâmicas; e outros utensílios de uso quotidiano, que nos remetem para a vivência monástica de todos os tempos.

Mosteiro de Tibães, Braga

A portaria do carro foi construída entre 1695 e 1698, sendo posteriormente remodelada em finais do século XVIII. Era a entrada de serviço do mosteiro, sendo a clausura defendida pelas portas do arco do jardim de São João.

Esta portaria ainda guarda do passado várias memórias, tais como: a sineta; as abóbadas; os bancos de pedra e o lajeado…

Por aqui passavam os carros e carroças que serviam o dia-a-dia do mosteiro. Também as liteiras e carruagens dos monges e hóspedes atravessaram este espaço…

Ressoam ainda neste local os passos de todos os que aqui trabalhavam e dos que aqui vinham entregar as rendas ao recibo.

Este pátio funcionava como elemento de ligação entre diversos espaços do mosteiro. Daqui se acedia à sala do recibo, aos celeiros, palheiros, adegas e cozinha, às estrebarias e à portaria de cima. No pavimento, em laje de granito, datado de meados do século XVIII, são ainda bem visíveis os sulcos deixados pelos carros de bois.

Mosteiro de Tibães, Braga

Esta sala, junto à portaria do carro, foi construída em finais do século XVII e remodelada em finais do XVIII. Era um dos poucos espaços do mosteiro com contacto com o exterior.

Na sala de entrada eram depositadas as galinhas e o vinho, no cimo das escadas armazenavam-se os produtos agrícolas provenientes dos foros sobre as terras do mosteiro sujeitas a arrendamentos.

Estes pagamentos eram quase sempre em espécies e recebia-os, pelo São Miguel, o padre recebedor que, de acordo com as normas da ordem beneditina, «os arrecadará o mais cedo que puder, porque depois que o lavrador tem o pão em casa é-lhe ruim de tirar da mão».

Os registos monásticos da época referem a existência de mobiliário da mesma tipologia do que agora se encontra exposto (oriundo das reservas de alguns museus nacionais).

O celeiro do mosteiro, com tulhas, caixão, medidas, pás, rodos e crivos, era também um local importante na administração dos bens do mosteiro, pois aqui se encontravam, até finais do século XVIII, os cartórios do mosteiro e da congregação. No armário de parede estavam os livros do recibo, os dos gastos, os dos prazos, os dos arrendamentos e vedorias, os mostradores de propriedades e ainda os tomos das sentenças.

Ainda perduram as tulhas, o chão de tijolo e as pedras do armário.

Existem réplicas dos livros, possíveis de consultar livremente, de modo a que o visitante possa conhecer um pouco do universo terreno dos monges de Tibães.

Com a intervenção de restauro realizada em finais do século XX, a sala foi reabilitada para servir como sala de exposições temporárias.

Mosteiro de Tibães, Braga

O jardim de São João Baptista, com a imagem do santo em terracota, foi construído entre 1733/34 pelo Mestre Manuel Fernandes da Silva.

Neste local, o grande desnível do terreiro acolheu o jardim alto, artifício que permitiu por um lado, a passagem discreta dos carros de bois que se dirigiam para os palheiros, a poente, e por outro, a construção de uma plataforma octogonal elevada, onde foi implantado o jardim, com a função de aparato pois era para ser visto de cima pelos hóspedes e abades.

Ladeado por alegretes, o jardim tem oito canteiros contidos numa «sebe» de cantaria de granito e no meio um chafariz de pedra lavrada, outrora pintado e dourado.

Por baixo passa um aqueduto que, encaminhando as águas de escoamento e de rega, permitia a lavagem da cavalariça e a rega do laranjal.

Os espaços como este, assim como os claustros, o jardim da capelinha de S. Bento e o jardim do Abade Geral eram considerados pelos monges como os jardins do mosteiro e eram trabalhados pelo hortelão que, sob ordens do monge mordomo, cuidava também dos alegretes e dos vasos existentes. Os canteiros dos vários jardins eram contidos por sebes de buxo ou por cantaria de granito.

Vinda de diversas minas, a indispensável água para o cultivo dos jardins, chegava até estes locais por uma elaborada rede de alcatruzes de barro, caleiros de pedra e canos de chumbo. Dotando assim as fontes do elemento necessário a toda a uma encenação barroca pretendida.

Mosteiro de Tibães, Braga

Quando a sineta tocava, e se já era dia claro e não tinham soado ainda as Ave-Marias, a porta era aberta pelo monge porteiro, um ancião prudente que, depois de olhar pelo ralo e cumprimentar com um Deo gratias ou Benedict, a todos respondia com modéstia e cortesia.

Aos pobres, com benignidade e paciência, distribuía pão, esmola e remédios.

A portaria que hoje observamos foi construída em finais do século XVII. Guarda, como marcas desse uso a velha porta em madeira, o ralo, a sineta e os armários do pão e dos remédios. Exteriormente é encimada pela imagem setecentista, em granito policromado, da Senhora do Pilar (atribuída ao escultor beneditino Frei Cipriano da Cruz).

Desta portaria podia entrar o visitante para a igreja, através do claustro do cemitério; ou, subindo as escadas e acompanhado pelo monge hospedeiro, aceder aos aposentos do abade geral ou às hospedarias.

Mosteiro de Tibães, Braga

Os claustros dos mosteiros beneditinos desta época consistiam, normalmente, em espaços fechados, dispostos em quatro galerias ou alas cobertas, sustentadas por arcaria aberta ou simples colunata. Eram espaços emblemáticos da vida monástica, núcleos ordenadores dos diversos corpos do conjunto monacal, locais de quietude e contemplação.

No claustro do cemitério do Mosteiro de São Martinho de Tibães, os monges oravam, liam, meditavam na vida do Patriarca São Bento e repousavam para o sono eterno, tendo sido construídas neste local as sepulturas numeradas que ainda hoje são bem visíveis no chão.

Este claustro foi construído sobre vestígios dos antigos edificados, nomeadamente da igreja e claustro românicos e do claustro quinhentista.

Erigido na primeira metade do século XVII, em arcaria toscana, com chafariz, canteiros e paredes revestidas a azulejos, foi reformado entre 1725 e 1727, pelo Mestre Pedreiro Miguel Fernandes. Trinta anos mais tarde recebeu um novo chafariz, com taça polilobada com carrancas. Alguns anos depois, entre 1761 e 1764, viu refeitas as duas capelas laterais, de invocação a Nossa Senhora e a São Bento, para as quais fez Frei José de Santo António Vilaça as portadas em granito com volutas, concheados e folhagens.

Em 1770 foram substituídos os azulejos barrocos pelos painéis de azulejos de decoração rococó sobre a vida de São Bento, provenientes de oficina lisboeta. Em finais do século XVIII os desenhos dos canteiros foram transformados em figuras quadradas.

Em 1894 foi afetado pelo grande incêndio que deflagrou no contíguo claustro do refeitório. Na primeira metade do século XX foi espoliado de alguns dos painéis de azulejo e das escadas e nichos da passagem entre claustros.

A profunda intervenção integrada de recuperação, conservação e restauro de que foi alvo, entre 2000 e 2002, para além de lhe conferir a antiga estabilidade física, teve como objetivo a restituição da sua unidade e harmonia estética. No ordenamento atual, as funções ligadas à Paróquia de São Martinho de Tibães ficaram instaladas neste claustro, nomeadamente a nova residência paroquial e as salas de catequese.

Mosteiro de Tibães, Braga

Construída no local da antiga igreja românica, a atual igreja foi erigida entre 1628 e 1661 seguindo o modelo arquitetónico maneirista. Apresenta planta de nave única em forma de cruz latina, abóbada de cantaria, capelas laterais na nave e dois altares no transepto.

A utilização da talha dourada é aqui exponenciada na decoração rococó que, caindo com grande plasticidade do coroamento do retábulo-mor, desce pela tribuna e trono e fixa-se nos fustes lisos das colunas, que grinaldas de concheados tornam espiraladas.

Depois a talha transborda do retábulo e invade sanefas, molduras e cadeiral. Só a rigidez hierática das imagens do retábulo mor – São Martinho de Tour ao centro, ladeado por São Bento e Santa Escolástica (da autoria de Frei José de Santo António Vilaça) – concedem uma certa tranquilidade a esta turbulência de formas.

Esta é uma das mais notáveis obras-primas da arte portuguesa, criada entre 1755 e 1760 pelo arquiteto bracarense André Ribeiro Soares da Silva e os entalhadores José Álvares de Araújo e Frei José de Santo António Vilaça, secundados pelos melhores mestres escultores, pintores e douradores da região.

O transepto, separado da capela-mor e da nave por grades de pau-preto com aplicações de latão dourado, apresenta os altares rococó de Nossa Senhora do Rosário – com as imagens de Santo António e de São Sebastião – e de São João Baptista, com as imagens da Virgem com o Menino e Santo Emídio.

Os retábulos, dos mesmos autores da talha rococó da capela-mor, vieram substituir os maneiristas, que foram transferidos em 1755 para o Mosteiro de São Romão do Neiva, em Viana do Castelo, conjuntamente com o retábulo da capela-mor, os púlpitos e o oratório do coro alto.

É interessante relembrar que, neste mosteiro, o culto a Nossa Senhora do Rosário remonta ao século XVI e ao tempo do comendatário Frei Bernardo da Cruz, que mandou construir, na velha igreja românica, uma capela de sua invocação. A confraria, então criada, continua e existir, celebrando a sua festa no terceiro domingo de Outubro.

Dos dois púlpitos eram feitas, para o povo, as pregações, com o objetivo de educar e transmitir os ensinamentos da Igreja. Também aqui, nas missas solenes em tempo de capítulo geral, os estudantes finalistas de teologia defendiam a sua tese, as “conclusões”, estando no outro púlpito o seu arguente que o questionava.

Para além do estilo rococó, bem presente na capela-mor e no transepto, a viagem pelos diferentes estilos de talha fica completa na nave da igreja. Ao visitarmos as capelas de Santa Gertrudes, Santa Ida, Santo Amaro, Senhor da Piedade, Sagrada Família, Santa Lutgarda e do Santíssimo (ou Descendimento da Cruz) ficamos a conhecer e a distinguir melhor os estilos: maneirista, barroco (nacional e joanino) e neoclássico.

Ainda na nave da igreja, sobressai o enorme órgão de tubos.

Construído em 1784 pelo mestre organeiro Francisco António Solha, inclui um grande órgão e um realejo. A caixa de talha dourada e marmoreada foi desenhada, na mesma altura, por Frei José de Santo António Vilaça e executada pelos entalhadores Luís de Sousa Neves e João Bernardo da Silva.

O seu programa iconográfico parte do homem na terra, representado no grotesco da bacia de sustentação com atlantes e máscaras, e que através da música, num percurso de delicados concheados, rendilhados, instrumentos musicais e anjos chega às virtudes da Fé, Esperança e Caridade que encimam a caixa.

Em finais do século XX, a caixa do órgão foi restaurada. Aguardamos ainda pelo restauro da máquina, na expetativa de podermos devolver a Tibães o som que outrora ecoava por toda a zona envolvente ao mosteiro.

Foi o trabalho notável de um grupo de arquitetos, entalhadores, escultores e douradores, onde se encontram nomes como Manuel Álvares, Frei João Turriano, António de Andrade, Frei Cipriano da Cruz, António Fernandes Palmeira, André Soares, José Álvares de Araújo, Frei José de Santo António Vilaça ou Luís de Sousa Neves, que tornaram esta igreja num dos mais elevados expoentes da arte religiosa portuguesa.

Mosteiro de Tibães, Braga

A sacristia foi construída entre 1680 e 1683.

É uma sala ampla, com teto em abóbada de berço, de caixotões de granito pintados.

Para aí entrar atravessamos um átrio, construído sobre os vestígios da igreja românica, onde podemos observar o lavabo da sacristia e ler na padieira da porta o elogio ao Abade Fr. João Osório pela conclusão da magnífica obra.

Do programa decorativo seiscentista desta sacristia sobreviveram os arcazes, os armários embutidos, os dois bustos relicários (de São Martinho de Dume e São Plácido) e as doze esculturas em barro policromado (novamente estofadas e pintadas na segunda metade do século XVIII). O conjunto escultórico, da autoria de Frei Cipriano da Cruz, representa:

– Uma alegoria à Igreja;

– Os quatro reis santos beneditinos – S. Sigismundo, S. Sigisberto, S. Casimiro e S. Bamba;

– As sete virtudes, quatro cardeais (Temperança, Prudência, Justiça e Fortaleza) e três teologais (Fé, Esperança e Caridade).

Os grandes arcazes de castanho, com tremidos em pau-preto e ornatos de latão dourado, feitos em 1683 são atribuídos ao ensamblador bracarense Agostinho Marques. Aqui são guardados os paramentos e as alfaias utilizadas na igreja.

O par de armários embutidos, de castanho e pau-preto, foram designados pelos monges como guarda-roupa e escritórios. Constituídos por três partes, têm, na sua parte inferior portas, na sua parte superior, gavetinhas numeradas, para guardar os amitos e sanguíneos de cada monge sacerdote e na parte central falsas gavetinhas forrando o painel em batente, que serve de escrivaninha.

O retábulo, com o crucifixo e a imagem de São João Evangelista, as sanefas e os caixilhos são de André Soares e de Frei José de Santo António Vilaça, autor também da credencia, e pertencem ao período da remodelação rococó de 1758 /1761, data em que o pintor italiano Pasquale Parente executou os quadros dos evangelistas: São João, São Lucas, São Marcos e São Mateus.

O chão lajeado de mármores brancos e vermelhos e de pedra de Montes Claros, originalmente situado no coro alto, foi aqui colocado nos inícios do séc. XIX.

Mosteiro de Tibães, Braga

Esta capela foi construída entre 1719 e 1722. Segundo o cronista da época «era das mais perfeitas e de mais custo que tem a província do Minho e nela se colocaram várias relíquias e pinturas belas».

Ainda hoje conseguimos nela encontrar pormenores de rara beleza, tais como: o pequeno retábulo, com múltiplos nichos e cartelas para colocação de relíquias e pequenas pinturas; vestígios da pintura barroca do seu teto; o vão da janela, em granito pintado; o lampadário e a porta de madeira à entrada.

Coro alto do Mosteiro de São Martinho de Tibães, lado poente.

«Esta é a casa de Deus. É a porta do Céu. Este lugar é terrível». Estas são as palavras escritas na sanefa em talha dourada e policromada, sobre as escadas de acesso ao coro. Cantar e rezar com a boca em sintonia com o coração era, segundo as Constituições, o principal ofício para que Deus elegeu os monges e os tirou do mundo.

Para ser monge do coro era exigido ser filho legítimo de pessoa nobre na sua terra ou então que soubesse solfejo, tocasse órgão ou quisesse ir para boticário, tendo na mesma que ser filho legítimo e sem nota de vileza alguma.

No coro celebravam-se sete ofícios divinos, que consistiam em rezar os salmos, antífonas e responsos: as matinas e laudes, pelas 2 horas da manhã, a prima às 5 horas, a tércia às 8 horas, a sexta às 10 horas, a noa às 12 horas, as vésperas às 15 horas e as completas às 17 horas.

Alguns dos ofícios eram acompanhados pela música do órgão.

O coro, onde agora se encontra, foi construído entre 1666 e 1668. A sua parte mais artística é constituída pelos espaldares do cadeiral em talha dourada e policromada. A sua rica imaginária fala-nos de monges beneditinos como o Papa Gregório Magno que viveu no século VI e adaptou o canto chão para ser utilizado nas celebrações religiosas da igreja católica – o chamado canto gregoriano. Está representado à direita de São Bento.

As figuras geminadas, seminuas e as frutas e flores que o decoram, remetem-nos para os novos mundos.

Os tampos levadiços dos assentos têm misericórdias com máscaras de homens e animais. Aqui podiam os monges apoiar-se discretamente durante os momentos do ofício em que permaneciam de pé. Animais fantásticos completam o discurso simbólico presente nos assentos do cadeiral.

Ao centro do cadeiral, exibindo as armas esculpidas e pintadas da Congregação, situava-se o lugar do abade.

O brasão da Congregação tem os seguintes elementos heráldicos: leão; castelo; água; sol; mitra; e báculo.

Os dois primeiros são alusivos ao reino de Leão e Castela, que acolheu a ordem beneditina na Península Ibérica. A água a sair do interior do castelo significa o voto de «passagem do mar». O sol é a luz do evangelho que ilumina toda a cristandade. A mitra representa o poder do Abade, que dentro dos mosteiros da possuía uma autoridade equivalente à do bispo, como pastor da «religião» beneditina. O báculo simboliza a autoridade do abade como guia pastoral dos monges.

O coro tem ainda:

– Oito quadros seiscentistas alusivos à vida de São Bento;

– A estante coral com um antifonário;

– O oratório com Cristo Crucificado que, tal como a sanefa que encima os janelões, é da autoria de Frei José de Santo António Vilaça;

– E os gradeamentos de pau-preto e bronzes dourados.

O chão, que era de mármore, foi soalhado em finais do século XVIII. Na mesma altura há referência à montagem de escarradores, no reverso das cadeiras do andar de baixo, para limpeza e asseio do mesmo coro e de quatro seirões por cima dos que cobrem o pavimento para neles se escarrar e comodamente se lavarem todas as vezes que for necessário.

O coro dá acesso ao órgão e às torres sineiras.

Mosteiro de Tibães, Braga

No couto de Tibães, até 1790 (data da extinção das ouvidorias privadas) a prática da justiça das causas cíveis e dos pequenos crimes esteve a cargo de um juiz que era escolhido pelo Abade entre dois eleitos pelos habitantes do couto. Era coadjuvado por dois vereadores, um almotacé e um procurador.

Ao abade, como ouvidor, recorriam os moradores em apelação. Eram recebidos no salão da ouvidoria.

Ao longo dos últimos séculos este salão foi recebendo outros usos e outras configurações. A última obra realizada ainda em período monástico decorreu entre 1801 e 1804 quando reformularam a escada e a decoraram com grades de ferro, pilares e urnas e construíram uma grande claraboia.

O passar do tempo deixou-nos ficar ainda muitas memórias, tais como:

– As grandes tábuas de pinho manso do soalho;

– O quadro, a óleo sobre madeira, de São Martinho;

– Os tetos em masseira, pintados, feitos de madeira de castanheiro;

– O silhar de azulejos monocromos, de inspiração flamenga, da 2ª metade do século XVII;

– A porta da sala de espera dos aposentos do abade;

– Os retratos de São Vítor e São Frutuoso e do confessor de Santo Inácio de Loyola, Frei João Chanones;

– E as molduras que teriam os retratos do rei suevo Teodomiro e de São Martinho de Dume, o evangelizador do território bracarense no século VI.

Mosteiro de Tibães, Braga

O Abade Geral da Congregação era também o Abade de Tibães. Em finais do século XVIII, os seus aposentos grandes e sumptuosos, à imagem do seu poder, eram constituídos por: sala de espera; sala de visitas; gabinete de dormir; casa do fogão; capelinha; e jardim.

Os aposentos tinham um recheio rico, com mobiliário de boas e exóticas madeiras, pratas e louças finas, pinturas e imagens. Este universo faustoso e belo era completado por cortinas e cortinados de damasco e linho, esteiras e alcatifas de lã, que tornavam este ambiente mais quente e confortável.

Até nós, chegou apenas (e no seu local de origem) o quadro do Papa Pio VII, monge beneditino, contemporâneo da decoração realizada em inícios do século XIX. O mobiliário agora exposto, da mesma tipologia do que existia, é oriundo de alguns museus nacionais.

Para a capelinha – ornada com pinturas sobre o nascimento e infância de Jesus, executadas por Frei José da Apresentação – desenhou, em 1783, Frei José de Santo António Vilaça, um retábulo neoclássico com colunas marmoreadas e grinaldas de folhas douradas, banqueta, cruz e relicários.

Estes aposentos serviram como residência paroquial até 1995, nomeadamente ao beneditino D. António Coelho, que nos anos trinta do século passado, com mais dois monges, tentou reinstalar em Tibães uma comunidade beneditina. É dessa época a escada em caracol que dá acesso ao sótão.

O jardim do Jericó, parte integrante dos aposentos do Abade Geral, foi construído no século XVIII, no local onde existia o Jericó da portaria. As paredes circundantes estão revestidas com azulejos seiscentistas, retirados da igreja aquando da sua remodelação rococó. Possui ao centro um chafariz de granito, alimentado pela água da mina da Cabrita situada no monte de São Gens.

Pela descrição monástica do jardim este teria canteiros de buxo e murta e um local com viveiros de pássaros.

Este era um espaço retirado e de uso pessoal do Abade Geral.

Durante parte dos séculos XIX e XX o jardim fez parte da residência paroquial de São Martinho de Mire de Tibães, tendo sido utilizado como cortelho, com porcos, galinhas, coelhos e patos.

Hoje apresenta-se de novo como um jardim, reinterpretando o seu uso original.

Mosteiro de Tibães, Braga

Nesta galeria ficavam os espaços ao serviço da Congregação. Aqui se situavam as celas do gastador, as dos antigos Abades Gerais, a do padre secretário, a secretaria e a casa dos despejos da secretaria, onde eram guardadas as camas, roupas, loiças e talheres que eram utilizados nos capítulos gerais.

Este dormitório foi construído entre 1686 e 1689, mas sujeito a remodelações várias ao longo do século XVIII, nomeadamente a colocação, nas janelas das celas, de vidraças á inglesa (conhecidas por janelas de guilhotina) e das águas furtadas. Apresenta celas grandes, separadas por paredes em taipa de rodízio.

Para além da barra de dormir e, por vezes, de leitos com cabeceira, as celas tinham mesas, estantes, armários de parede, cómodas, bufetes, cadeiras (algumas de sola lavrada e pregaria) e tamboretes de couro. Este mobiliário era de boas madeiras, sobretudo pau-preto, com bronzes e incrustações de marfim. Quadros com molduras pintadas e douradas e cortinados em portas e janelas, integravam ainda a sua decoração.

No corredor, os tetos pintados a amarelo branco e azul, os silhares de azulejo e os numerosos quadros de reis e príncipes, papas e bispos revelavam o poder de casa-mãe da importante e rica Congregação. Alguns destes quadros, comprados nos anos oitenta do século XX aos antigos proprietários pelos beneditinos do mosteiro de Singeverga, voltaram, em depósito, ao seu local de origem.

Mosteiro de Tibães, Braga

O acolhimento das pessoas, hóspedes ou peregrinos, merece a S. Bento um tratamento especial na sua Regra. Receber os hóspedes é realizar um ato de fé realizado pelo monge hospedeiro.

Ocupando a ala poente do mosteiro, a hospedaria tem 16 celas distribuídas por cada um dos lados do longo corredor, cujo teto, em caixotões de castanho entalhado, foi outrora pintado.

As celas, separadas por paredes de taipa de rodízio, sem travamento, eram rebocadas e tinham pinturas a óleo. Para além do armário de pedra encastrado, comum a todas, as celas dispunham quase sempre do mesmo mobiliário: cinco a oito cadeiras de cerejeira ou de castanho; uma mesa de castanho ou de pau-preto; e um leito, que podia ser um catre ou uma barra de ferro, com tábuas de castanho e cabeceira.

Existia uma casa da roupa das hospedarias onde estavam guardados os lençóis, cobertores, mantas, enxergões, almofadas, travesseiros, colchas e toalhas de mão que aí eram usados.

Lentamente algumas das celas têm sido recuperadas, mas ainda é possível ver numa delas, deixada propositadamente aberta, a situação de ruína a que o mosteiro chegou até que foi comprado pelo Estado Português.

Mosteiro de Tibães, Braga

Entre 1731 e 1734 está registada a construção do passadiço, com uma fonte no meio e alegretes pelos lados. Com esta obra ficou dividido o grande terreiro que existia entre a portaria do carro e a adega, ficando escondida dos olhos dos principais hóspedes a zona de serviço associada à lavoura.

Seguindo os cenários teatrais do barroco, foi executada uma passagem com arcadas para a zona de serviço e um pano de parede rebocada para a zona da portaria. Esta parede é decorada com um nicho, com a imagem em terracota de São João Baptista.

Os alegretes existentes no passadiço servem de costas aos bancos e alegram o espaço com as suas flores. Ao meio está uma fonte de pedra, com o Cordeiro lançando água pela boca com este dístico «Quem quer que tenhas sede, aproxima-te da fonte benigna. Esta água não faz mal, vê donde jorra».

Mosteiro de Tibães, Braga

Entre 1813 e 1816, para receber a escolhida coleção das delicadas pinturas que o pintor José Teixeira Barreto, o ex-monge Frei José da Apresentação, deixou por morte à congregação beneditina, foi construída a casa das pinturas.

Nos 10 anos que se seguiram, os monges foram enriquecendo a coleção comprando mais quadros e medalhas, chegando a possuir mais de duas centenas e meia de quadros, entre os quais alguns de autores da escola portuguesa oitocentista, como Domingos Sequeira, Ignácia Pimenta Cardote, Vieira Portuense e Joaquim Rafael.

A este acervo veio juntar-se um museu de raras e antigas moedas e medalhas, que chegou a ter mais de 3.000 peças.

Os quadros e as medalhas tiveram destinos diferentes após o encerramento do mosteiro. Os primeiros foram levados por João Baptista Ribeiro, logo em 1833 e por ordem da Comissão Administrativa dos Conventos Abandonados, para o Museu Portuense; as segundas foram inventariadas, integraram as Contas Correntes dos objetos preciosos dos conventos e foram depositadas na Biblioteca Pública de Lisboa em 1842.

Mercê do protocolo assinado, em 2001 entre o Instituto Português do Património Arquitetónico (IPPAR) e o Instituto Português de Museus (IPM), parte dos quadros da casa das pinturas, constantes nas coleções do Museu Soares dos Reis, «herdeiro» do Museu Portuense, voltaram ao Mosteiro de São Martinho de Tibães para uma «nova casa das pinturas».

Mosteiro de Tibães, Braga

De acordo com os documentos normativos, o barbeiro deslocava-se ao mosteiro de 12 em 12 dias para barbear e fazer a tonsura aos monges. Desde a noite anterior ao dia marcado, um caldeirão de água fervia no fogo da chaminé. O barbeiro também fazia sangrias, lançava sanguessugas e tirava dentes.

Em 1797, numa pequena parte da barbearia, foi montada uma botica para «fornecer os remédios com prontidão e diminuir os gastos com as compras». Foi apetrechada com tudo o que era necessário: farmacopeias; potes; mangas; garrafas; frascos e outros utensílios; drogas; e ervas medicinais, que segundo indicações do boticário, eram apanhadas na cerca pelo «moço das ervas», compradas aos «apanhadores» ou nas feiras.

Na atual cerca podemos encontrar algumas espécies de plantas medicinais, descendentes das que o moço das ervas colhia e que, debaixo da chaminé da botica, eram transformadas em infusões, óleos e unguentos, sossegando assim os males dos monges e da população local.

Mosteiro de Tibães, Braga

Todos os diferentes dormitórios deste mosteiro – dos noviços, coristas, sacerdotes e hóspedes -, tinham as suas secretas ou “necessárias”. Com a mesma função, existiam nas celas dos abades e na enfermaria, «poltronas» ou caixas com servidores em louça ou folha-de-flandres.

As secretas que serviam o corredor da hospedaria apresentam quatro compartimentos individuais, separados por um tabique em fasquiado de madeira, fechados por meias portas. No seu interior os buracos alteados, as retretes, despejavam diretamente para uma nitreira, situada no piso inferior, compartimento este que, cheio de mato, produzia o estrume que servia de adubo orgânico das terras.

Quanto à higiene dos monges o que sabemos é que em cada cela existia um jarro, uma bacia e uma toalha das mãos além do bispote ou servidor (o comum penico) e que no descanso mensal a que os monges tinham direito pela Regra, tomavam banho na cabana dos banhos no rio Cávado, da qual há referência em finais do século XVIII.

Já no século XIX, há o registo, em 1810, da compra de uma bacia de tomar banho e a informação de que na enfermaria existiam canoas de banho.

Mosteiro de Tibães, Braga

Este corredor foi construído no dealbar do século XVIII e fazia a ligação entre a hospedaria e o dormitório sul do mosteiro, desaparecido em 1894 com o grande incêndio do claustro do refeitório.

A meio exibe a porta de acesso à livraria, seguida das cinco celas do antigo dormitório da livraria, que são agora espaços de apoio para todos os que neste mosteiro queiram aqui desenvolver projetos culturais.

Seguiu a linha decorativa dos outros corredores, com chão de madeira e tetos policromados em caixotões de castanho, decorado com mísulas e florões.

Na parede exibem-se as pinturas quinhentistas da escola flamenga, representando os Passos da Paixão de Cristo. Ao abrigo do protocolo já referido entre os organismos da cultura, estas pinturas, da coleção do Museu Machado de Castro e originárias do antigo convento das Ursulinas de Coimbra, foram restauradas e aqui colocadas.

Mosteiro de Tibães, Braga

A livraria ocupa um lugar nobre no mosteiro, mesmo ao lado da sala do capítulo. Está virada a sul e é bem iluminada e arejada por duas janelas e uma sacada, protegidas por grades de ferro.

Segundo a opinião do cronista beneditino Marceliano da Ascensão, a livraria, edificada entre 1701 e 1704 e remodelada entre 1783 e 1789, era a melhor que se encontra em todas as comunidades religiosas da província do Minho.

No seu interior contava com vinte e quatro estantes de nove prateleiras e continha, à data de 1798 num índex de impressos, realizado por Frei. Francisco de São Luís, cerca de 4.000 títulos, para uns totais de 10 a 12 mil volumes, que abarcavam as áreas da teologia, da jurisprudência canónica, natural e civil, das ciências e artes, da literatura, da história, e da poligrafia, bibliografia e história literária.

A maior parte destes livros seria do século XVIII, mas possuía também obras de séculos anteriores. Revelando a influência do iluminismo no Mosteiro de São Martinho de Tibães, encontravam-se as obras publicadas pela Real Academia das Ciências de Lisboa, a Coleção da Legislação Antiga e Moderna de Portugal, as Memórias do Instituto Nacional de França e, entre outras, a grande Enciclopédia Metódica.

Após a extinção do mosteiro a Comissão Administrativa dos Conventos Abandonados, de que fazia parte Alexandre Herculano, transferiu alguns dos livros para a Biblioteca Pública do Porto. O que restou da seleção feita por aquele académico foi avaliado e inventariado e ficou à mercê de mãos alheias até 1841, data da instituição da Biblioteca Pública de Braga e da consequente incorporação dos remanescentes.

O espaço, hoje recuperado, é frequentemente utilizado em atividades educativas e culturais desenvolvidas pelo Serviço de Educação.

Mosteiro de Tibães, Braga

A sala do capítulo é um dos espaços mais nobres do mosteiro. O principal ato aqui realizado acontecia de três em três anos, a três de maio, dia da Santa Cruz.

Em capítulo geral, os abades de todos os mosteiros pertencentes à Congregação elegiam o novo Abade Geral, todas as prelazias, os abades dos mosteiros e decidiam sobre a vida material e espiritual da Congregação de São Bento.

Foi construída em 1700 e mais tarde remodelada entre 1783 e 1786.

Nessa altura fizeram-se as quatro sacadas com grades de ferro, emadeirou-se toda de novo, retelhou-se, forrou-se, pintou-se e recebeu um retábulo novo. Este, dourado e marmoreado, com risco de Frei José de Santo António Vilaça. Tinha uma pintura da descida do Espírito Santo sobre os Apóstolos. Aqui se celebravam as missas no capítulo e juntas gerais.

A meio da sala existia a mesa de castanho da assembleia, coberta de cordovão preto, que é uma pele de cabra muito fina. Nas gavetas estavam dois vasos dos escrutínios e feijões para os votos. Na cabeceira da mesa, em cima de um estrado, ficava a cadeira de braços do reverendíssimo, acompanhada pelos canapés dos definidores. À frente da cadeira um tamborete raso, destinado ao lugar do secretário.

À volta da sala, nos bancos de madeira de castanho com pinturas fingidas de pau-preto, sentavam-se todos os monges da Congregação com direito a voto.

As paredes são revestidas com 14 painéis de azulejos vindos de Lisboa em estilo rococó, sobre a vida de José do Egipto, personagem do Antigo Testamento que soube utilizar os dons que Deus lhe deu no bom governo dos bens terrenos.

Em articulação com os vãos das janelas, estão os quadros de D. Sebastião, Cardeal D. Henrique, D. Filipe I de Portugal e de Sisto V, aqui em réplicas fotográficas, pois os originais estão no mosteiro de Singeverga.

A ladear o altar, estão os retratos dos reformadores Frei Plácido Villa-Lobos e Frei Pedro de Chaves. Com estes quadros, da autoria do pintor José Teixeira Barreto quando ainda era o Irmão Frei José da Apresentação, estão alguns dos retratos dos abades gerais da congregação, mandados fazer a partir de 1758, de autoria de João Gonçalves Ribas.

Com a obra de reabilitação de finais do século XX, a sala recuperou o soalho de grandes tábuas de pinho manso, teve o teto restaurado, os azulejos conservados e recebeu de novo o seu retábulo, retirado no tempo do uso privado para a capela de São Bento da cerca.

Alguns dos quadros, vendidos pelos antigos proprietários aos monges beneditinos do mosteiro de Singeverga e a particulares, foram devolvidos ao seu lugar por depósito ou doação.

Claustro do refeitório do Mosteiro de São Martinho de Tibães, reabilitado.

Este claustro era muito idêntico ao claustro do cemitério. Foi em parte destruído pelo incêndio que nele deflagrou a 11 de Julho de 1894.

Construído a partir de 1614, apresentava quatro lanços de seis tramos de arcaria toscana. No centro encontrava-se um chafariz e canteiros de pedra com cravinas e boninas.

O piso inferior exibia no teto painéis a óleo e tinta fina sobre a vida de São Bento, nas paredes silhares de azulejos de padronagem policroma do século XVII e entre as escadas e a porta do refeitório apresentava o lavabo, o qual ainda lá se encontrava em 1983.

Neste claustro situavam-se alguns dos espaços do quotidiano monástico. No piso superior existiam os dormitórios dos sacerdotes, a casa de comer para os hóspedes de graduação e a casa das pinturas. No piso térreo, no trânsito entre os dois claustros ficava, em 1800, o cartório. A nascente, a zona oficinal e as secretas. A sul, o refeitório e a porta de saída para a horta e a poente a despensa, a cozinha e o hospício (lugar onde nos séculos XVII e XVIII comiam os hóspedes do mosteiro e que hoje acolhe o restaurante da Hospedaria de Tibães).

Durante o uso privado e quando a cerca era trabalhada por caseiros, o claustro foi transformado em terreiro agrícola com eira e sequeiro.

A partir dos anos 70 do século XX foi espoliado das suas pedras, fontes e azulejos. Os azulejos que restaram formam hoje o painel do patamar da escada.

A análise dos documentos monásticos e as escavações arqueológicas realizadas permitiram conhecer a geometria do antigo claustro, que a intervenção realizada no século XXI passou a revelar.

Ruínas do refeitório do Mosteiro de São Martinho de Tibães.

Segundo a Regra de São Bento, «À mesa dos irmãos não deve faltar a leitura. Guarde-se absoluto silêncio, de forma que não se ouça murmúrio ou palavra de ninguém a não ser somente a voz do leitor».

Construído em inícios do século XVII, iluminado a sul por sete grandes janelas, tinha 17 mesas de madeira levantadas em plintos de pedra, assentos com espaldares de azulejo, púlpito de pedra lavrada e chão lajeado de granito. Todas estas existências deixaram vestígios ainda hoje visíveis.

Nos armários e num caixão grande eram guardados, para além da Regra e dos livros de leituras espirituais, os talheres, copos, toalhas, guardanapos e aventais.

Um grande quadro e cortinados nas janelas envidraçadas faziam parte da decoração.

Os monges tinham duas refeições por dia: o jantar às 10 ou 11 horas da manhã e a ceia, pelas 5 ou 6 horas da tarde.

Sobre a mesa estava o pão, água e vinho. Eram servidos, conforme o dia da semana, de carne ou peixe, este sempre acompanhado de legumes e fruta. A partir do século XVIII o arroz era servido a todas as refeições.

Em dias de jejum a ceia era substituída por uma pequena refeição – a colação. Nos dias de festa a comida era mais abundante e variada sendo muito apreciados a lampreia e o leitão assado.

Existiam muitos e variados doces, sendo o mais frequente o doce de São Bento, que era feito de ovos em fio e pão-de-ló (os chamados ovos reais).

Cozinha do Mosteiro de São Martinho de Tibães, Braga

De inícios do século XVII, foi sofrendo alterações ao longo dos anos, a última das quais, entre 1813 e 1816.

Com três espaços distintos e defendida por janelas com grades, é um conjunto formado pela cozinha, a casa dos fogões de pedra e a casa dos fornos.

Na cozinha fazem falta as três rodas de pau de pôr os presuntos, mas podemos ver a lareira (onde grandes caldeirões ferviam), os armários embutidos na parede (onde se arrumava, entre outros utensílios, o moinho de mostarda e as formas de folha para pastelinhos e timbales), as pias com fonte e a mesa de pedra…

A ligação com o refeitório fazia-se através da ministra com sua roda para fazer passar os alimentos, que os monges servidores levavam às mesas. Ao lado da ministra funcionavam os fogões de pedra. Na porta a Norte, acedia-se a uma das despensas, onde eram guardadas as loiças como pratos, tigelas, salseiras, púcaros e aparadeiras que serviam no refeitório. Pelo baixo corredor existente, a comida chegava ao hospício.

Sob ordens do monge mordomo, os cozinheiros, o moço de cozinha e o forneiro, que dormiam em beliches na cozinha e eram pagos com soldadas trianuais, preparavam as refeições para a comunidade ajudados em dias de festa e por ocasião do capítulo geral por mais pessoal contratado para o efeito.

Mosteiro de Tibães, Braga

Este terreiro ficou definido quando foi feito o passadiço em 1731-34. É atravessado pelas águas soltas do lago e das chuvas.

Era aqui o centro do mundo agrícola e silvícola do mosteiro.

Ainda hoje podemos ver as portas que davam acesso à adega, aos lagares e à casa da despensa, onde existiam tonéis, pipas, as talhas de azeite, as caixas de farinha e de carne e as dornas de sal.

Para ele convergiam a adega, a abegoaria (espaço onde eram guardados os utensílios de lavoura), os palheiros, a casa do azeite e a da fruta, a casa do alambique, a casa dos boieiros, as cortes, as portas de acesso às cozinhas, ao pomar e às hortas.

Por baixo do passadiço temos referências que existiam uma coelheira e um galinheiro.