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Rua do Mosteiro, 59

4700 - 565 Mire de Tibães, Braga

As Invasões Francesas

As Invasões Francesas

Ocorridas em três vagas sucessivas entre os anos de 1807 a 1810, as invasões francesas marcaram no nosso país a entrada da contemporaneidade de forma traumatizante, com violências e destruições generalizadas que reforçaram a decadência do nosso país, que se vinha registando já desde inícios do século XIX.

Estão já razoavelmente estudados e conhecidos todos os movimentos militares das invasões francesas e as suas consequências do ponto de vista político, económico e social. Estes estudos partiram, na sua maioria, dos relatos da época, dos quais destacaremos os volumes dados à estampa por José Acúrcio das Neves, que nos deixou um importante manancial de informação sobre as invasões[1].

“As Invasões Francesas forneceram, algumas vezes, o pretexto para muitos saques, roubos e destruições, que foram levados a cabo por camponeses, a coberto da impunidade que a presença dos franceses propiciava, mas onde se denota, por vezes, a desforra para muitos anos de mal sofrida sujeição e outras o fácil remédio para situações aflitivas de momento. Os Mosteiros foram alvo dessa ira e desses levantamentos populares, tendo sido a Abadia de Tibães uma das vítimas”. Esta afirmação de Aurélio de Oliveira podemos corroborá-la na seguinte transcrição:

Tudo aquilo que escapou deve se ao zelo e amizade de hum sirurgião da Freguezia de Tibaens, chamado Domingos Joze (he necessario não esquecer este facto e mostrarmos em todo o tempo o nosso reconhecimento a este homem verdadeiramente bom e honrado amigo), logo que elle soube dos horrores que se cometião no Mosteiro, idiou hum requerimento e aprezentou se com elle ao Marechal Soult que tinha entrado em Braga, e acompanhado de hua mulher com hum cestinho de maçaens que então herão estimadas, foi por entre perigos e sustos solicitar hua ordem para por guardas ao Mosteiro e sustar nos roubos que ali se estavão fazendo. Felismente se agradou o marechal da sinceridade do prezente e da suplica e alcançando o Despacho que desejava, veio aprezenta lo aos Francezes que com o povo andavão roubando. Á vista do Despacho, forão os Francezes postos fora e o mesmo povo que era peor que elles, porque estavão tão imbebidos no saque que foi necessario deita lo fora a pranchadas de espada. Já comtudo a este tempo havia apenas algum vinho e o mais que digo escapou e que a não ser este sucesso teria sido tambem roubado e talves incendiado o Mosteiro, como queria o povo, que depois se arrependia de o não ter feito[2].

No mosteiro de Tibães, mas também noutros mosteiros e nas paróquias anexas, gente de diversas freguesias próximas iam destruindo e pilhando tudo o que encontravam, reflexo das precárias condições de vida das populações e da ausência de uma administração judicial e policial que pudesse controlar os abusos populares.

Em Tibães, o saque efectuado quer pelos invasores quer pelos populares foi enorme:

[…] fizeram-se de novo muitos aprestos da Abogoaria, muitas eixadas, e mais ferramentas por terem sido roubadas quazi todas as que tinha o Mosteiro.

Fizeram-se chaves novas para quazi todas as officinas do Mosteiro e em quazi todas as fechaduras se mudaram as guardas por terem sido roubadas no saque, as chaves.[3]

A este facto não é alheio o abandono a que o mosteiro foi votado pelos seus religiosos, tentando escapar à fúria dos invasores. O medo apoderou-se de todos, que fugiram como puderam. Receavam o fim da Congregação, como nos refere Fr. Luís dos Serafins Saraiva, então secretário da Congregação: o R.mo chamara a communidade e […] lhe dissera que lhe parecia bem se repartisse o dinheiro que havia e que cada hum podesse gastar no cazo de dissolver se a Congregação.[4]

Assim, compreende-se que o povo, que havia perseguido e assassinado o General Bernardim Freire de Andrade e os seus ajudantes de campo, sentindo a fuga dos monges, não hesitasse em poder apanhar algo do muito que existia em Tibães. Desde o cereal do recibo, até às fechaduras ou chaves das portas.

A renda em cereal de dois anos foi quase toda saqueada, como nos referem os Estados de Tibães de 1810: E muito mais ficaria de alcance se não fosse roubado o Recibo com quazi todo o pam da renda de dous annos e todos os mais generos que havia na caza, o que se pode ver dos seus respectivos livros e pagou a Congregação hum conto e quatrocentos mil reis de generos que egualmente forão roubados.[5] A este respeito, Fr. Luís dos Serafins afirma: Consta, pelas contas que se fizerão, que no Recibo se furtarão 5000 e tantos alqueires de pão de toda a qualidade, na dispensa tudo, na adega apenas deixarão algua pipa de vinho verde e na cuzinha e officinas baixas não deixarão nem hua colher para se mexer o caldo.[6] Estes dados são-nos confirmados pelos Estados de Tibães para o Capítulo Geral de 1810, que nos indicam os alqueires de cereal roubados:

Descargo de Trigo: Furtaram os Francezes cento e sessenta. Furtou o povo deste Couto, e vizinhos delle novecentos, e trinta e oito e dous quartos.

Segunda: Furtaram cinco mil seisentos e sessenta e tres alqueires e maquias oito.

Cevada: Furtaram os Francezes cento e cinquenta e seis alqueires.[7]

Quando os franceses chegaram ao mosteiro, tinham à sua espera gente de várias freguesias próximas que os acompanharam no esbulho: “estando nos ainda dentro do Mosteiro quazi a maior parte, já se tinha tirado muito pão do Recibo e saqueado inteiramente a dispensa de tudo o que nella havia pelo povo da Freguezia […] Esta noticia correo e quando chegou a guarda avançada dos Francezes que hera a maior parte de Cavalaria, já se achavão ali povo de todas as Freguezias vizinhas e com elles entrarão a roubar o que não tinha sido roubado pelos mesmos moços da caza e povo que entrou logo que sahimos. Não consta que haja pessoa que deixasse de levar algua coiza, senão o cirurgião Domingos Joze e hum lavrador chamado Barca de Agoa, velho e honrado; todos os mais da Freguezia e de sinco ou 7 vizinhas levarão alguma coiza. Sabe se que a caza de Bento Galdino foi a que mais levou, principalmente do pão”.[8]

A descrição da delapidação do património do mosteiro é elucidativa: Na Sachristia não poderão entrar e por isso escapou o que ali havia que hera tudo, pois o R.mo não deu a menor providencia para se acautelar alfaias tão preciozas como tem. Como não poderão penetrar as portas da Sachristia e Igreja, voltarão pela Tribuna, arrombarão-na e por ahi descerão a Igreja para arrombar o Sacrario, como arrombarão, quebrando a porta e levando o vazo que ali tinha deixado o sachristão, depois de consumidas as particulas […] Arrombarão mais a cazinha que fica na Capela mor ao lado do Evangelho e dahi levarão a maior parte da cera que ali se guardava; arrombarão mais o Sacrario do altar de S.ª Gertrudes, onde nada acharão: e dahi arrombarão a porta que vai da Capela mor para a Sachristia, sobirão as escadas e forão a Capelinha de S. Joze donde fizerão algum estrago. A porta que ahi fica e que sahe para a varanda do claustro foi quebrada. No Coro, roubarão o pano que tapa as escadas com o seu ferro, tirarão a cera que la acharão, o resplendor do S.º Christo e aparecerão cordas lançadas ao alto da crus, que parecia ser para deitar a mesma crus abaixo. Pelos dormitorios não se vio hua só porta que não fosse quebrada ou arrombada, todos os moveis dos particulares, que pela maior parte tinhão ficado, forão roubados, e nas hospedarias, barbearia, refeitorio e rouparia, infermaria, caza de comer, etc., tudo foi saqueado e destruido. No Capitulo Geral rasgarão e levarão as cortinas do altar e frestas. Cortarão o pano que tapa os lados da meza e o levarão; arrombarão a gaveta da mesma meza […] destruirão o jogo de tabulas e tanto estas como o pano e cuberta do jogo de bilhar tudo foi roubado.

Na Livraria arrombarão os armarios dos manuscriptos; levantarão a taboa das mezas para ver se por baixo haveria dinheiro escondido; quebrarão os globos geograficos e astronomicos e só furtarão huns tres volumes de viagens […]

Em todas as mais oficinas fizerão o maior estrago possivel, levando tudo ate não ficar hua colher, hum copo, hua tigela, em fim, nem hua rodilha; ficarão somente paredes e solho. As capelinhas do claustro, refeitorio, quartos dos moços, estrebaria, hospedarias baixas, abiguarias, nada escapou, e todos os seus utensilios forão roubados menos o calis de hua capelinha que escapou por se ter escondido; finalmente, he incrivel o mizeravel estado a que o Mosteiro ficou reduzido, porque depois se não vião senão paredes e solho e o mais tudo quebrado, roubado, destruido e somente palha e lã pelos corredores de se terem despejado ali os enxergoens e colxoens. Escapou somente como já disse, a Livraria, a Sachristia, por não poderem arrombar ou quebrar, os meus trastes e a Secretaria, que estavão escondidos em abobedas, e parte do Cartorio que tambem se tinha acautelado,[9] porque a outra parte se não foi roubada, o que so se pode saber conferindo o que existe com o Index, ao menos he certo que a porta estava aberta, os papeis pelo chão e alguns forão achados em diversos sitios. Como vimos, escapou ao saque a Igreja, a Livraria e a Sacristia.

 

[1] ACÚRSIO DAS NEVES, José – História Geral da Invasão dos Franceses em Portugal e da Restauração deste Reino. Porto: Edições Afrontamento (198?). 2 Vols., V tomos. Obras Completas. Idem: Viagem sentimental á Provincia do Minho em Agosto e Setembro de 1809. In Miscelânea. Lisboa: Impressão Regia, 1809. Número I, Cap. V.

[2] SARAIVA, Fr. Luís dos Serafins – Memorias sobre o Estado actual dos Mosteiros que vou vizitando, sendo 2.ª vez Secretario da Congregação depois que sahirão os Francezes, e segundo as noticias que achei e que me forão communicando os Prelados e diversas pessoas com que falei neste assumpto.Biblioteca Nacional: Reservados. Manuscrito 11237, fls. 97-97 v.

[3] ADB-UM, CSBP, Estados de Tibães, 409 – A (1801-1813), Estado de 1810, fl. 76.

[4] SARAIVA, Fr. Luís dos Serafins – Memoria sobre o Estado actual dos Mosteiros…, fls. 92 v.-93.

[5] ADB-UM, CSBP, Estados de Tibães, 409-A, Estado de 1810, fl. 78.

[6] SARAIVA, Fr. Luís dos Serafins – Memorias sobre o Estado actual dos Mosteiros…, fl. 96.

[7] ADB-UM, CSBP, Estados de Tibães, 409.A – 1801-1813, fl. 68-72 v.

[8] SARAIVA, Fr. Luís dos Serafins – Memorias sobre o Estado actual dos Mosteiros…, fl. 95 v.-96.

[9] A forma como Fr. Luís dos Serafins “acautelou” a Secretaria e alguns objectos preciosos é interessante: propus por muitas vezes ao R.mo não só a cautela que deviamos ter com o Cartorio e Alfaias da Sachristia e mais officinas, mas com o dinheiro que se achava em caixa, para o que tinha eu mandado fazer hum caixote em que me parecia cabia todo o dinheiro e nelle enterrar se ou por se a salvo. Não fui attendido apezar de muitas vezes que repeti a mesma proposta. Romperão os Francezes as nossas linhas! Chegou a Tibaens noticia de que no dia 17 vinhão os Francezes almoçar a Braga; Cuidei eu logo em arranjar 4 caixoens em que meti o Cartorio da Secretaria e varios faqueiros de prata, castiçaes, tinteiro de Capitulo, as reliquias da Capela do R.mo e alguas outras pessas, como gomil e prato da mesma Capela e fis meter tudo de noite em hua abobada por baixo das hospedarias que ficão para o terreiro da lenha. SARAIVA, Fr. Luís dos Serafins– Memorias sobre o Estado actual dos Mosteiros…, fl. 92.